terça-feira, 6 de novembro de 2007

Bram Stoker (II)

É verdade, e temos que o reconhecer, Bram Stoker não foi um grande escritor. Pelo menos, se considerarmos a qualidade literária dos seus escritos tendo como referência outros escritores, esses sim, grandes dentro do mesmo género.
Sir Arthur Conan Doyle, quanto a mim, supera-o largamente, deste ponto de vista especificamente literário. Embora um e outro revelem traços criativos e de construção literária bastante diferentes. O que poderá não justificar a comparação.
No entanto, o valor de Bram Stoker persiste no que se refere à intensidade e ao poder da imaginação. Como podemos comprovar de diversas e de inúmeras formas, a sua memória permanece viva, a partir dessa fabulosa personagem que criou, o Conde Drácula.



O que deveremos continuar a perguntar é : onde foi buscar Stoker a inspiração para tal personagem?
Muitas têm sido as respostas. É interessante continuar a averiguar e relembrar algumas explicações. Entre as que conheço, parece-me bastante fiável a ideia de que o Conde Drácula foi criado com base em diversos elementos, recolhidos a partir de diferentes contextos e que Stoker foi utilizando para estruturar, cada vez mais consistentemente, a personagem que daria vida ao seu romance.
Frequentou o Trinity College, onde conheceu Oscar Wilde, assim como Henry Irving. Qualquer deles viria a marcar a vida de Stoker. Passava vários períodos na casa de Wilde a convite dos pais deste. Aí conheceu o meio artístico irlandês.
Entretanto, a carreira de Henry Irving tornava-se fulminante. Inspirado pelo sucesso como actor que o seu amigo conquistava, Stoker propõe-se fazer crítica teatral para vários jornais de Dublin.
O pai não via com bons olhos a sua ligação ao mundo do teatro, o que o levou a iniciar uma carreira de assistente social, tal como a mãe, após ter concluído o seu curso em matemáticas. Passava os dias a percorrer bairros pobres de Dublin e as noites nos teatros e tertúlias da altura.
À medida que a carreira de Henry Irving, como actor shakespeareano da época, se consolidava, e sendo ele também um homem de negócios, decidiu comprar o Lycium Theater de Londres. E convidou Stoker para gestor do teatro, considerando os seus conhecimentos vastos de matemática e de gestão. Mas... parece que Irving nunca se tornou o amigo que Stoker esperava.
É neste ponto que podemos encontrar uma fonte inspiradora para a criação do Conde Drácula.



Segundo alguns críticos, as histórias de Stoker seriam a forma de revelar o ressentimento que tinha para com Irving. E Drácula pode muito bem ter sido o retrato do vampiro Irving. Esta interpretação revela-se plausível, considerando a projecção social do conde transilvano e a do afamado actor, as suas acções e o seu modo de ser, a sua capacidade de adormecer a presa e depois sugar-lhe a vida.
A verdade é que o grande actor centralizava em si todo o movimento de dinheiros. Stoker era, portanto, não um gestor mas um mero secretário de Irving. Este pagava tarde ou não pagava sequer aos seus empregados. Também criava situações que simulava desconhecer, cabendo a Stoker dar a cara perante os credores e assumir a responsabilidade.
A gestão de Irving veio a revelar-se ruinosa em resultado da sua enorme desorganização.
Stoker desenvolveu, entretanto, a sua carreira literária. Publicou vários textos curtos, contos e novelas, romances de características populares e peças teatrais. Deste modo, procurava compensar o dinheiro que Irving não lhe pagava.
Foi no ano de 1890 que começou as investigações para a sua obra-prima: Drácula. Este ano foi também o de apogeu do movimento esteticista de Wilde.
Stoker nunca mudou a sua sorte no que se refere à situação económica delicada, tendo mantido o seu emprego de gestor de teatros até ao fim da sua vida.
O processo criativo do seu imaginário traduzia literariamente, de algum modo, a influência de um tipo de teatro que podemos designar por gótico, o qual pode ser considerado um antecedente directo do cinema moderno. Era um tipo de teatro que procurava, através de um grande número de efeitos especiais, trabalhar ao máximo a imaginação do espectador. O teatro gótico surgiu em finais do século XVIII, mas era ainda um programa constante nos muitos pequenos teatros populares cockneys, no tempo de Stoker.


Henry Irving

Interessante será também perguntar: porque acontece atribuir-se um valor menor a estas narrativas que alimentam o imaginário de muitos com grande prazer?
Se nem sempre serão construções literárias magníficas, a riqueza simbólica e o poder de imaginação que revelam deveriam ser motivos mais do que suficientes para serem respeitadas e apreciadas, mesmo que circunscritas a um contexto específico. Assim como a grande adesão popular que conseguem conquistar. O que pode ser um excelente motivo para aprofundar a sua poderosa carga simbólica. Por certo, o mundo da fantasia revela imenso, e ainda mais do que isso, acerca da natureza do ser humano.
Por outro lado, a ser certo que a inspiração para o Conde Drácula resultou da pessoa de Henry Irving, alguém que Bram Stoker tão bem conhecia e com quem convivia tão de perto; a ser isso a verdade, nesse caso, só resta concluir que a vida real é sempre a principal fonte de inspiração de todo o artista, ou seja, o que mais o inspira é sempre essa magnífica musa: a vida...

(Texto de referência para recolha de informação: introdução de Hugo Xavier aos Contos de Terror de Bram Stoker)
(Imagens: resultados de pesquisa no Google)

1 comentário:

Carla Milhazes Gomes disse...

Curiosa esta relação entre a realidade de Bram Stoker e a criação da personagem que o celebrizou:)

Bjs.