sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Bram Stoker (I)

Bram (Abraham) Stoker foi um dos principais representantes da literatura fantástica na era vitoriana. Este escritor irlandês, nascido em Dublin, viveu entre 1847 e 1912. A sua obra literária mais conhecida e de grande popularidade continua a ser "Drácula" (1897). A única figura literária, da mesma época vitoriana, a rivalizar com a do Conde Drácula, é a do famoso detective Sherlock Holmes, criado por Conan Doyle (1859-1930).
Era o tempo de criar formas que podemos considerar de evasão relativamente aos rígidos padrões morais da Inglaterra vitoriana. Essa mentalidade repressiva e seus correspondentes caminhos de evasão perpassavam todo o ambiente intelectual que influenciou Bram Stoker. Mas o domínio da literatura fantástica é considerado, por muitos estudiosos do género, muito mais do que um projecto escapista face a uma realidade repressora. Em vez de escapista, afirmam tratar-se de um tipo de literatura pela qual se proclama a liberdade do homem para a escolha da acção. Ainda que muitas vezes essa liberdade se realize no domínio do mal. Mas esta opção de realização, a partir do mal (e a própria crença na existência do mal, em oposição ao bem), revela precisamente o desejo de escapar, mas também de enfrentar a repressiva mentalidade vitoriana, cujo carácter proibitivo era exercido com especial incidência no domínio da sexualidade. Deste modo, os vitorianos apresentavam, regra geral, uma tendência para viverem com grande intensidade uma vida dupla.
Podemos afirmar que é este o foco central a partir do qual será de analisar o domínio da literatura fantástica: um universo onírico realizado através do sempre fecundo processo de sublimação.
Considero do maior interesse, para a própria compreensão do criador de Sherlock Holmes, dispensar atenção a todos aqueles que se notabilizaram e notabilizam no domínio da literatura fantástica e policial.
De igual interesse e destaque será "visitar" as relações entre racional e irracional, domínios nem sempre nitidamente distintos. E estes géneros literários são formas privilegiadas de o fazer.
Esta época foi também a do grande filósofo Henri Bergson (1859-1941), defensor da intuição no acesso ao conhecimento: uma outra forma de alcançar o saber que coexistiria lado a lado com a actividade própria de uma inteligência racional.

Conan Doyle é igualmente um representante ilustre desta época e desta atmosfera intelectual. Bastará referir a sua crença num Reino das Fadas, para o provar e exemplificar. Por sinal, Bram Stoker tinha também um interesse especial por contos de fadas, para os quais teria sido cativado pela sua mãe.
Vários outros autores criaram histórias de vampiros, além de Bram Stoker. O gótico britânico dos séculos XVIII e XIX foi grandemente inspirado pela figura do vampirismo. Influência que se fez sentir no autor de "Drácula". O próprio Conan Doyle escreveu uma história de vampiros, "O Vampiro de Sussex", publicado no The Strand Magazine em Londres, 1924. Esta história integra "As Aventuras de Sherlock Holmes".
De referir ainda, acerca da influência do vampirismo na literatura, "Carmilla" de Sheridan Le Fanu (1872) e "O Estranho Caso do Doutor Jekyll e Mr. Hyde" de Robert Louis Stevenson (1886).
Mas é também nos trabalhos de Ann Radcliffe, Coleridge, Byron, Polidori, Rymer e Collins que se encontram as origens do Conde Drácula, este célebre vampiro criado por Bram Stoker. E que ainda hoje inspira não só o domínio da literatura fantástica como, em larga medida, o universo dos filmes de terror, sendo a adaptação da história do Conde Drácula já um clássico do cinema, mas também todo um mundo ainda por explorar.

(Imagens obtidas a partir de pesquisa no Google - autores desconhecidos)

3 comentários:

isabel c. disse...

A dualidade da mente humana é fascinante (Dr. Jekyll & Mr. Hyde, por exp.).

Excelente pesquisa AP :)

Beijos

Carla Milhazes Gomes disse...

Por falares nesse escapismo que muitos autores vitorianos "punham em prática" através da escrita, lembrei-me, e no contexto de um mundo de fadas paralelo a este em que vivemos, do "Peter Pan" de James Mathew Barrie (1860 - 1937) em que essa separação entre o bem e o mal está bem vincada.

Por outro lado, não deixa de ser curioso que no final da época vitoriana surja uma figura real mas que bem poderia ter saltado de um livro de ficção: Jack, o estripador. O escapismo levado ao extremo, mas a um extremo máximo na medida em que até hoje não se sabe qual a identidade do assassino apesar das inúmeras hipóteses.

Duas faces da mesma moeda...

Beijinhos!!!

RAA disse...

Obrigado pelo link, Ana Paula. Vou arranjar tempo para prestar atenção aos seus outros blogues, que me parecem também muito bons. Este encanta-me.