quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Homenagem

Também por aqui se presta homenagem a Arthur Conan Doyle e Sherlock Holmes!



Vale a pena ver e ler... de que modo um jovem atento e inteligente mantém vivos e presentes, entre nós, quer o excelente escritor, quer a sua mais célebre criação.

Obrigada, Miguel !

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Henry James


Há escritores/as extraordinários/as. O tempo nunca chegará para os descobrir e conhecer a todos/as. Por vezes, à medida que vamos conhecendo melhor algum/a, mais vamos gostando e sentindo uma imensa e perfeita afinidade. É o caso de Henry James. Sem dúvida, um dos meus grandes escritores de eleição.

É uma leitura que não pode ser feita com pressa. Só seguindo o próprio ritmo dos seus textos, lentos e insidiosos, é possível assimilar e apreciar a perfeição literária que deles se desprende e a densa profundidade dos seus magníficos e minuciosos retratos psicológicos. Depois de alcançado o domínio deste exercício mental que H. James de nós exige... é impossível esquecer o escritor e a sua obra.

O domínio do chamado sobrenatural faz parte dos temas abordados por este autor. A esse propósito, vários textos seus podem ser referidos. Escolho uma leitura minha mais recente, "O Altar dos Mortos".



Assim escreve, simultaneamente com grande delicadeza e rigor na análise psicológica:

"Nem ele próprio se lembrava da altura em que tal ideia lhe tinha surgido, mas o resultado viria a ser um altar iluminado por inúmeros círios e dedicado a esse culto secreto. Tal altar passou a ser parte integrante da sua vida espiritual.
Havia muito tempo que Stransom se interrogava, embaraçado, acerca da sua religião e se declarava muito satisfeito por, afinal de contas, não seguir a religião que certas pessoas desejariam que ele seguisse. Mas o problema começou a tomar vulto: cedo se convenceu de que a religião instituída na sua consciência primitiva era simplesmente a religião dos Mortos. Adaptava-se às suas inclinações, satisfazia-lhe o espírito, dava uma razão de ser à sua piedade, correspondia perfeitamente ao gosto dele pelas cerimónias de ritual solene e magnificente.
Pouca coisa entendia de tais assuntos, a não ser que, para quem necessitasse, tal religião era acessível. Não havia pobre que não pudesse erigir semelhantes templos espirituais, templos iluminados por inúmeros círios e envoltos em incenso, ornados de imagens e de flores. As despesas de manutenção, como é uso dizer-se, incumbiam inteiramente à generosidade do seu coração."

"Vagueou ao longo dos transeptos, parando diante das várias capelas, de todas, à excepção de uma votada a uma qualquer devoção particular. Foi diante da capela-mor iluminada que se deteve mais tempo, o tempo bastante para medir perfeitamente a possibilidade de a iluminar a expensas suas. Podia libertá-la de qualquer outro culto, sem todavia a reduzir a qualquer função profana: pediria para lha cederem e faria dela uma obra-prima de esplendor, uma colina de luz. Ornada diariamente com veneração, impregnada da atmosfera sacral da igreja, seria ali que ele ia ter a liberdade de exercer o seu culto. (...) Imaginou tudo, imaginou como, nos intervalos das suas ocupações, ali podia encontrar a serenidade, na melancolia da tarde; imaginou como, no meio do mundo indiferente, aquele altar podia ser um constante penhor.
(...)
Tal foi a origem do culto público, embora esotérico, que Stransom teve possibilidades de estabelecer."

O objectivo do autor, ao desenrolar com infinito talento as suas histórias ligadas ao sobrenatural, nas quais, tal como em muitas outras, os temas constantes são o Amor e a Morte, não é tanto a descrição do sobrenatural ou a explanação de como possa ocorrer um efectivo acesso a tal domínio; mas sim, o mergulhar nas profundezas do espírito humano, analisando minuciosamente a vida psicológica das personagens, trazendo luz às suas emoções e sentimentos mais obsessivos e compulsivos. A pouco e pouco, leva-nos a penetrar no lado mais obscuro das mentes, trazendo até nós a sua dimensão tantas vezes doentia, a qual , na origem desses conteúdos tornados patológicos, contém desejos ou impulsos incontornáveis: a atracção excessiva pela morte, o vício do mórbido que vai consumindo, e o amor que atrai tanto mais quanto é de perdição. H. James mostra detalhadamente como o interior psicológico é um mundo fantástico, imenso e desconcertante. Tão criativo quanto destrutivo. Que vale a pena conhecer e desvendar... Que é importante analisar e compreender.
Nesta história, "O Altar dos Mortos", a atracção pela morte, mais tarde associada ao amor, fonte de vida e única força que combate a devoção pela morte; nela, o fascínio pelos Mortos toma de tal forma conta da personagem, lenta e gradualmente, que, mais ou menos inconscientemente, Stransom chega a desejar tornar-se num dos Mortos do seu culto.
Para lá da aparência de normalidade e de correcção no comportamento das suas personagens, regra geral mundanas e sofisticadas, H. James revela o que se encontra imerso e oculto no espírito humano.

Um criador literário de brilhante talento, anunciando o Eros e Thanatos freudianos.

Boas leituras num Feliz 2008!


Mais sobre o autor aqui
(O retrato de Henry James é de John Singer Sargent)