terça-feira, 28 de agosto de 2007

Conan Doyle e outras histórias...

Sir Arthur Conan Doyle é, antes de mais, conhecido por ter sido o criador de Sherlock Holmes. No entanto, este escritor que considero brilhante, escreveu muitos outros textos. Todos eles são, a meu ver, de grande interesse e de enorme valor do ponto de vista artístico e inclusivamente histórico e científico. Será preciso não esquecer que Conan Doyle foi médico e, enquanto tal, um homem de ciência. Este facto não o impediu, apesar de marcante no seu percurso literário, de dar toda a atenção a perspectivas provenientes de muitos outros quadrantes, perante o mundo e a vida.
Para além de ter dedicado uma parte considerável do seu talento literário à construção de narrativas do tipo romance histórico, na fase mais tardia da sua vida, escreveu, por exemplo, textos acerca do espiritismo. Interessou-se, portanto, pelo domínio da espiritualidade.



Este blog tem como tema inspirador a figura de Sherlock Holmes, mas seria uma tremenda injustiça não assumir igualmente como núcleo central do seu desenvolvimento, a figura de Sir Arthur Conan Doyle. Na verdade, o criador deve estar ao mesmo nível, no mínimo, da sua criação. Isto, na medida em que Sherlock Holmes é daqueles casos em que pode dizer-se que a obra chega a transcender o artista.
No entanto, pessoalmente, considero que o nome de Conan Doyle terá ficado demasiado obscurecido pelo do detective ao qual deu vida. Ou seja, considero Doyle um dos escritores e um dos seres humanos mais interessantes de todos os tempos. Para isto contribuem quer a sua vida, quer a sua obra. A descobrir e a "explorar"...

Relativamente à sua criação literária mais célebre, ela teve início em 1887 com «Um Estudo em Vermelho». Foi então que Sherlock Holmes e o seu grande amigo Dr. Watson (médico, tal como Doyle), fizeram a sua brilhante aparição no mundo daqueles que passaram a ser os seus leitores assíduos e fiéis. Até hoje...
De acordo com a autobiografia de Conan Doyle, a figura de Sherlock Holmes terá sido inspirada no Dr. Joseph Bell, brilhante médico cirurgião e seu professor na Universidade de Edimburgo. A influência desta figura de carne e osso foi notoriamente marcante, não só em Doyle, mas igualmente em Robert Louis Stevenson («Dr. Jekyll and Mr. Hyde») e James M. Barrie («Peter Pan»).

(Imagens: Ilustração de George Sellas e imagem retirada daqui )

sábado, 18 de agosto de 2007

Parabéns ao Lauro António!

Hoje, o Lauro António faz anos! Muitos parabéns! A propósito, gostaria de deixar ficar aqui umas palavras acerca da sua personalidade única.
Além do seu conhecimento profundo do cinema, uma das facetas mais marcantes do Lauro António é muito semelhante à revelada pela fotografia que aqui apresento. O amor e o prazer dos... e com os... livros! O seu universo é também o universo dos livros, da literatura. Eu sei que pode ser difícil viver rodeado de livros. Mas também sei que é fascinante viver desse modo. E no meio dos tantos livros que possui, por certo se encontram obras de Sir Arthur Conan Doyle. Presentes, sem dúvida, as memoráveis aventuras de Sherlock Holmes!

Agradeço ao Lauro António, não só porque faz anos, mas também por isso, toda a partilha do interesse pela literatura. E ainda bem que ele possui esta maravilhosa característica!
Uma palavra de agradecimento ainda, pelo incentivo à actividade bloguística!



(Imagem: fotografia de Francisco Ralha)

sábado, 11 de agosto de 2007

Irene Adler



Embora pouco focada pelo seu autor, Sherlock Holmes tinha uma vida do tipo que designamos por "amorosa". Se é que esta designação se pode aplicar propriamente ao seu perfil. Uma "paixão" bem guardada e vivida no passado, mas nunca esquecida. Por vezes, ele abria a gaveta da sua secretária e dela retirava a fotografia de Irene Adler, a mulher mais bela que conheceu. Para Holmes, ela foi sempre «a» mulher.



"Para Sherlock Holmes, ela é sempre a mulher. Raramente o ouvi referir-se-lhe de qualquer outra forma. Aos olhos dele, ela eclipsa e prevalece sobre todas as representantes do seu sexo. Não que ele sentisse por Irene Adler qualquer emoção análoga ao amor. Todas as emoções, e essa em particular, eram detestáveis para o seu espírito frio, preciso, mas admiravelmente equilibrado. Ele era, julgo eu, a máquina mais perfeita de raciocínio e observação que alguma vez existiu no mundo; enquanto amante, porém, ter-se-ia colocado numa posição embaraçosa. Nunca falava das paixões mais doces senão num tom de sarcasmo, com um sorriso de escárnio no rosto. Tais arroubos eram coisas admiráveis para o observador - excelentes para levantar o véu que encobre os motivos e as acções humanas. Porém, para alguém habituado a raciocinar com método, permitir tais intromissões no seu temperamento delicado, em que nada é deixado ao acaso, seria introduzir um factor de distracção que poderia lançar dúvidas sobre todos os resultados das suas deduções. A poeira num instrumento sensível ou uma racha numa das potentes lupas de que ele se servia não seriam percalços mais incómodos do que uma emoção forte numa natureza como a de Sherlock Holmes. E para ele, no entanto, só havia uma mulher, e essa mulher era a falecida Irene Adler, de duvidosa e equívoca memória."
Arthur Conan Doyle, "Um escândalo na Boémia"

Holmes é-nos mostrado como uma espécie de "máquina de calcular humana". Uma máquina com a particularidade de possuir e ser capaz de accionar um sistema do tipo "espírito inventivo". O que o tornava uma "máquina" muito especial. Única e brilhante. Com luz própria, de facto.

As emoções, para Sherlock Holmes, constituiam elemento perturbador da sua actividade excepcional de "mente que brilha". No entanto, Conan Doyle mostra-nos que ele era um verdadeiro ser humano, não isento de sentimentos e de emoções. Apenas não as mostrava, guardando-as em lugar seguro, de modo a poder manter a imperturbabilidade necessária para resolver os mistérios e enigmas em que se envolvia. Só assim poderia manter as suas capacidades extraordinárias em acção.

É deste modo que Doyle o revela, como profundamente humano e, enquanto tal, contraditório. Sensível e racional, um ser complexo traçado com o génio e o talento do seu criador. E assim surge a imagem feminina de Irene Adler, mais um elemento a ter em conta para elaborar a teia complexa do perfil psicológico de Sherlock Holmes.

(Imagens: ilustrações de Phil Cornell e de Tom Johnson )

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Sherlock Holmes: dedução, indução e abdução

Regra geral, pensamos em Sherlock Holmes como um dos grandes mestres do raciocínio lógico-dedutivo. De facto, essa vertente está sempre presente nas suas investigações.
No entanto, em rigor, e aprofundando mais a questão, que tipo de raciocínio(s) deveremos considerar na resolução de um caso típico de Holmes? Concluiremos que, na verdade, além da indução e da dedução que se encontram, sem dúvida, presentes, o tipo de inferência (raciocínio) mais utilizado por Sherlock Holmes é a abdução.



De facto, é a abdução que impera em toda a busca de soluções nos casos policiais. É o tipo de raciocínio que faz parte, igualmente, de toda a investigação científica.

Vale a pena lembrar o nome de quem prestou grande contributo para a clarificação de todos estes aspectos relativos ao raciocínio: Charles Sanders Peirce (1839-1914), filósofo, cientista e matemático norte-americano. O seu pai, Benjamim Peirce, era um dos mais importantes matemáticos de Harvard, na época. Dedicou grande parte da sua vida e dos seus estudos à Filosofia e à Lógica, sendo conhecido, sobretudo, pela sua contribuição nestas áreas.

Peirce elaborou a sua teoria dos três tipos de inferências no contexto da questão dos métodos das ciências. De acordo com ele (uma vez que o chega a afirmar), a abdução é o tipo mais importante de raciocínio. A abdução é importante na medida em que, para além de dar origem às hipóteses numa investigação, contribui para a teoria acerca da percepção, tem um papel relevante na memória e é essencial para a história. Para além disso, seria a essência do pragmatismo, entendido por Peirce como a lógica da abdução.

Que é, então, concretamente, a abdução? Não esquecendo a dedução e a indução...
A dedução e a indução são conhecidas como inferências, ou seja, como o meio pelo qual chegamos a concluir alguma coisa a partir de outra (ou outras) já conhecida(s).
Na dedução, se conheço X, infiro (concluo) a, b, c, d, ... conforme os casos. Na indução, dados e conhecidos a, b, c, d, ... ou seja, vários casos particulares com características comuns, infiro (concluo) X. A dedução é um procedimento pelo qual, um facto ou um objecto particular passa a ser conhecido pela sua inclusão num conhecimento ou numa teoria geral previamente definida e tida como certa ou verdadeira. "Caminha", portanto, do geral para o particular. O raciocínio dedutivo pode, no entanto, desenrolar-se também do geral para o geral. A indução percorre um caminho contrário ao da dedução: de casos particulares para uma lei, uma definição ou uma teoria geral.
Dedução e indução possuem regras precisas que devem ser respeitadas para que as conclusões obtidas possam ser consideradas válidas. A verdade de qualquer conclusão, numa investigação, dependerá da validade dos raciocínios que a ela possam ter conduzido.

Voltando à abdução, Peirce considera que, além da dedução e da indução, existe uma terceira modalidade de inferência, a abdução, sendo esta diversa na medida em que não é propriamente demonstrativa. A abdução é uma espécie de intuição que procede passo a passo para chegar a uma conclusão. Mais importante ainda, a abdução é a procura de uma conclusão a partir da interpretação racional de sinais, de indícios, de signos. Um espírito observador é extremamente importante, já que dificilmente deixará escapar qualquer indício que possa ter interesse para uma investigação. Será com base na recolha do maior número de indícios ou sinais que todo o raciocínio abdutivo poderá operar. Adquirido um determinado "material" de trabalho, a abdução sugere hipóteses explicativas. Trata-se de uma actividade de intensa imaginação e criatividade. Neste sentido, o investigador é verdadeiramente um espírito inventivo.


Charles Peirce (1839-1914)

Eis-nos, pois, em pleno universo sherlockiano! O exemplo dado por Peirce, para explicar em que consiste a abdução, é, precisamente, o dos contos ou histórias policiais. Refere-se ao modo como os detectives vão recolhendo indícios ou sinais, com base nos quais procuram formar uma teoria explicativa para o caso que investigam.A abdução assemelha-se à intuição do artista e à capacidade de adivinhação do detective, uma vez que estes, antes de iniciarem os seus trabalhos, contam apenas com alguns sinais, os quais lhes sugerem ou indicam pistas a seguir... Os historiadores também costumam usar a abdução.
Peirce descreve a abdução como "spontaneous conjectures of instintive reason" (instinto racional).

Diz-nos também:
"A abdução, no fim de contas, não é senão conjectura."

E ainda:
"A sugestão abdutiva advém-nos como um lampejo. É um acto de introvisão (insight), embora de uma introvisão extremamente falível."

Pode dizer-se, em síntese, que a indução e a abdução são procedimentos racionais que utilizamos para a aquisição de conhecimentos, ao passo que a dedução será o procedimento racional que empregamos na verificação e comprovação da verdade dos conhecimentos já adquiridos (por exemplo, a análise efectuada com vista à confirmação da veracidade das hipóteses). Típico de várias etapas das investigações de Sherlock Holmes, nomeadamente na recapitulação do caso, aquando da decifração do enigma inicialmente existente.

Tudo o que procuramos averiguar, acerca de Sherlock Holmes e do seu brilhante criador, nos conduz a um universo fascinante: o da vida humana. Este universo do ser humano é também o da sua procura de compreensão e de explicação de si e do mundo. E, neste caso, uma interpretação pode fazer toda a diferença!

Um pequeno exemplo:
" (...)- O meu amigo vê, mas não observa. A diferença é óbvia. Por exemplo, já viu muitas vezes a escada que sobe do vestíbulo para esta sala.
- Muitas vezes, sim.
- Quantas?
- Ora, umas boas centenas.
- Então quantos degraus tem a escada?
- Quantos?! Não sei.
- Precisamente! Não observou. E, todavia, viu. Era exactamente aí que eu queria chegar. (...)
Arthur Conan Doyle, "Um escândalo na Boémia"
Ou ainda:
"(...) ele nunca se mostrava tão formidável como depois de passar dias a fio refastelado na poltrona, a improvisar ao violino e a folhear os seus volumes em letra gótica. Era então que a ânsia da caçada o invadia de súbito e as suas brilhantes capacidades de raciocínio dedutivo ascendiam ao nível da intuição, até que aqueles que não estavam familiarizados com os seus métodos o olhavam de viés, como alguém detentor de conhecimentos inalcançáveis pelos outros mortais. (...)"
Arthur Conan Doyle, "A Liga dos Ruivos"

( Imagens: daqui e daqui )

OS ACTORES QUE REPRESENTARAM SHERLOCK HOLMES

Colaboração enviada por Frederico Corado, do blogue "Não há Nada como o Realmente"
JEREMY BRETT / SHERLOCK HOLMES

"(...) é de toda a justiça falar de Jeremy Brett como um dos grandes actores que deu vida a Sherlock Holmes. É um facto que as interpretações de Peter Cushing ou Christopher Lee (ambos em filmes do mestre Terence Fisher), ou mesmo a de Basil Rathbone (independentemente da qualidade dos filmes), são também memoráveis, mas tendo em conta que cresci a ver na televisão, influenciado pelo meu avô, a série protagonizada por Jeremy Brett, é sem dúvida a que mais me marcou sentimentalmente. Creio também que a personagem criada por Sir Arthur Conan Doyle nos seus livros está muito mais próxima de Jeremy Brett do que de qualquer outro, os gestos rasgados no nada, os olhares, o humor, a homossexualidade disfarçada, a dependência das drogas, tudo encontra em Brett um caminho lúcido e inequívoco.
Depois há outros motivos para falar de Jeremy Brett. Quem não se lembra de "My Fair Lady" cantando "On The Street Where You Live"?
Jeremy Brett nasceu Peter Jeremy William Huggins em 1933 e morreu em 1995. Estudou no Eton College onde foi considerado um desastre académico devido a um problema de dislexia. Foi depois estudar canto e teatro para a Central School of Speach and Drama em Londres. Estreou-se no teatro em 54 e entrou para a Old Vic Company em 1965 e mais tarde para o Royal National Theatre onde interpretou várias peças de Shakespeare e outros clássicos.
Em 1958, Jeremy Brett casou com a actriz Anna Massey, de quem se divorciou em 1962 (tiveram um filho chamado David Huggins, hoje um celebre romancista inglês). Anos mais tarde, Brett e Massey apareceram juntos na BBC numa dramatização de "Rebecca" (1978), com Brett no papel do herói assombrado e Massey no papel da sinistra dona de casa (David Huggins também entrava no filme).
Em 1976 Brett casou com uma americana, produtora da PBS, Joan Wilson, que veio a morrer de cancro em 1985. Brett nunca voltou a casar.
A partir do início dos anos 60 Brett estava sempre presente no cinema ou na TV, desde "D'Artagnan" ao Captain Absolute em "The Rivals" ou, em 1973, no papel de Bassanio na produção televisiva de "O Mercador de Veneza" com Laurence Olivier, em Shylock, e Joan Plowright, em Portia (Brett, Olivier e Plowright tinham já feito os mesmos papéis na produção teatral do Royal National Theatre.)
Em 1964 apareceu o inevitável Freddie Eynsford-Hill em "My Fair Lady" seguido de Danilo na produção televisiva de "A Viúva Alegre" onde, contrariamente a "My Fair Lady", cantaria com a sua voz.
A sua dicção é sempre extraordinária, mas muito "´própria", devida ao facto de ter sido operado enquanto jovem. Não consegue pronunciar os "Rs" e por isso, desde então, ficou conhecido pela sua pronúncia muito característica.
Durante 40 anos Brett interpretou dezenas de papéis, mas de facto é Sherlock Holmes (que criou desde 1984 até 1994 para a Granada Television) que o fez o mais conhecido actor da televisão britânica.
Brett sofria de doença bipolar (ou maníaco depressiva), que piorou violentamente desde a morte de Joan Wilson. Joan morreu pouco tempo depois de Brett ter filmado a "morte" de Holmes em "The Final Problem" (algo que me deixou completamente devastado - o Sherlock Holmes não deveria morrer). Entretanto Brett tirou umas férias e quando regressou, em 86, para voltar a gravar a série teve um esgotamento nervoso causado pelo agravamento da doença bipolar. Durante a última década da sua vida foi hospitalizado várias vezes para tratamento da sua doença, e a sua saúde e aparência vinha-se a deteriorar consideravelmente como pode ser visto nos últimos episódios da série.
Havia planos para filmar todas as histórias de Sherlock Holmes, mas Brett morreu com um ataque de coração na sua casa de Londres antes do projecto ser terminado. O seu coração tinha vindo a enfraquecer desde a sua infância devido a um caso de febre reumática, e foi piorando com os vários medicamentos que tomava para prevenir os episódios maníaco depressivos, sobretudo lítio, para não mencionar o facto de fumar compulsivamente (numa entrevista, Edward Hardwicke, o segundo Dr. Watson da série, disse que Brett comprava 60 cigarros todos os dias a caminho do estúdio e fumava-os todos). Sherlock Holmes morreu! Viva Sherlock Holmes!