domingo, 25 de novembro de 2007

Outros Mundos

"Cheio o coração de delirantes fantasias
Que eu capitaneio,

Com uma lança de fogo e um cavalo de ar

Viajo através da imensidade."

Canção de Tom O'Fedlan



Este é o início de uma nova rubrica à qual tenciono dedicar algum espaço aqui. Refere-se ao domínio da literatura fantástica e de ficção científica. Este género alia-se, de algum modo, ao policial e ao sobrenatural, na medida em que todos eles, enquanto estilos e temas literários, têm como pólo de atracção o desconhecido.

No contexto desta temática, há autores que gostaria de homenagear, tais como Júlio Verne, H.G. Wells e, com contornos algo diversos, H.P. Lovecraft. Não só a sua obra, mas também a sua condição humana, os seus percursos de vida e certas facetas, por vezes menos conhecidas, das suas vidas.
O próprio Conan Doyle, enquanto cientista, interessou-se pelo tema de outros mundos. Refiro-me ao seu romance "O Mundo Perdido" e à tentativa de reconstituição, informada cientificamente, de um tempo onde o ambiente do planeta Terra era certamente muito diferente. Um recuo no passado que sendo ficcional, não deixa de ser igualmente uma projecção de um possível futuro, algures na Terra ou noutro qualquer lugar do Universo.

E que dizer dessa criação absolutamente fantástica de Mary Shelley: "Frankenstein"?! No mínimo, única e genial! Uma antecipação do futuro, onde a humanidade possui poderes de manipulação da natureza e da vida para além da morte. O sonho da imortalidade que continua a estimular a mente humana...

Também Edgar Allan Poe, o qual constituiu uma importante referência para Conan Doyle (e para tantos outros!); também ele escreveu um interessantíssimo conto de projecção no futuro: "Um Homem na Lua".
Uma leitura imperdível, é o que considero. Sobretudo para aqueles que são admiradores de Poe.
Eis um pequeno excerto que nos situa no ambiente:
"(...) eu tinha chegado ao ponto exacto em que a atracção do planeta terrestre era substituída pela atracção do satélite. Em resumo: ao ponto em que a gravitação do balão em relação à Terra era menos poderosa que em relação à Lua. É verdade também que saía de um sono profundo, que tinha os sentidos ainda embotados e que me encontrei subitamente na presença de um fenómeno previsto de antemão, mas não naquele momento. (...)"

Aqui fica também uma outra homenagem à fantasia e à imaginação de outros mundos...




(Imagem: "Entre les Époques I" de Sergei Apparin)

domingo, 18 de novembro de 2007

O Mistério de Cloomber (I)



Tal como já referi anteriormente, Sherlock Holmes foi uma criação de Conan Doyle de tal forma forte que conseguiu eclipsar, em grande medida, as outras obras literárias do escritor. No entanto, muitas são as que se encontram disponíveis para leitura e que não deixam de suscitar o mais vivo interesse por parte de todos os apreciadores do género. É o caso de O Mistério de Cloomber (1888) . Esta história, passada na Escócia, possui um elemento extra que prende a atenção do leitor: um castelo. Para todos aqueles que gostam destas antigas construções, este é sem dúvida mais um pólo de atracção a acrescentar ao sempre misterioso enredo. É de assinalar que este estilo de ambiente de grande incógnita constitui uma atmosfera constante até ao final. O qual não deixa de surpreender e de manter interrogações no "ar" que ficam para quem as quiser pensar.

Como exemplo de criação do cenário onde decorre a acção, em particular, aquele que Doyle descreve como sendo o do Castelo de Cloomber, pode ler-se:

" (...) A ocidente estendia-se a praia vasta e amarela, depois o mar da Irlanda, ao passo que, em todas as outras direcções, o plaino desolado - verde-acizentado no primeiro plano e cor-de-rosa à distância - espalhava-se até ao horizonte em curvas longas e baixas.
Muito desolada e solitária era esta costa de Wigtown!
(...)
Uma vez perdida Branksome de vista, não havia nenhum sinal de trabalho do homem, excepto a alta torre branca do castelo de Cloomber, que se erguia como a pedra tumular de um sepulcro gigante, no meio dos abetos e dos lárices que o cercavam.
Este grande edifício, a uma milha ou mais da nossa residência, tinha sido construído por um rico negociante de Glasgow, com gostos estranhos e a mania da solidão; mas na altura da nossa chegada havia vários anos que o castelo não era arrendado.
Exibia ele os seus muros maculados pelas intempéries e as suas janelas vazias abertas de par em par, fitando o vago por cima da colina.
Sem hóspedes, como que enferrujado, servia apenas de ponto de referência aos pescadores, que haviam descoberto, pela experiência, que, alinhando a chaminé do
laird e a torre branca de Cloomber, podiam determinar a rota através dos malditos recifes que apresentam o dorso coberto de asperezas como o de um qualquer monstro adormecido sobre as águas agitadas da baía batida pelos ventos."



Ou ainda:

" (...) Tomou por uma pequena vereda através da charneca, que nos conduziu a um terreno sobreelevado, de onde avistávamos o castelo a nossos pés, sem a nossa vista ser perturbada pelos abetos que tinham sido plantados em seu redor.
- Repara nisto - disse a minha irmã, detendo-se no cume da pequena eminência.
Cloomber ficava por baixo de nós, resplandecendo de luz.
No piso inferior, as portadas impediam-nos de ver a iluminação, mas acima, desde as largas janelas do segundo piso até às fendas estreitas do alto da torre, não havia um interstício ou uma abertura que não lançasse para o exterior um jorro de luz.
O efeito era tão ofuscante que, por um momento, fiquei persuadido de que a casa estava a arder, mas a fixidez e a transparência da luz depressa me retiraram tal apreensão.
Tratava-se, evidentemente, do efeito de um grande número de candeeiros dispostos sistematicamente em todo o edifício.
A impressão estranha que se sentia era acrescida pelo facto de todas estas salas, brilhantemente iluminadas, se acharem, na aparência, desocupadas e de algumas, tanto quanto podíamos avaliar, nem sequer estarem mobiladas.
Em toda aquela grande casa não havia nenhum sinal de vida ou de movimento: nada a não ser o jorro claro de luz amarela imutável."

Excertos de O Mistério de Cloomber de Sir Arthur Conan Doyle



(Imagens: resultados de pesquisa no Google)

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Arthur & George

Encontrei aqui e vale a pena ler.



“ARTHUR & GEORGE”
Julian Barnes é inglês, escritor, admirador de Gustave Flaubert, que já foi tema de um romance seu, “O Papagaio de Flaubert”. “Arthur & George”, seu mais recente livro, volta a centrar a acção num escritor, Arthur Conan Doyle (1859-1930), criador da personagem do detective Sherlock Holmes, cujas histórias policiais de pura dedução, ambientadas numa Inglaterra vitoriana, entusiasmaram gerações. Mas Julian Barnes não pegou na personagem de ficção, mas sim no escritor com existência física para dele nos falar em “Arthur & George”: Arthur é, pois, o célebre Conan Doyle, George é um tal pouco falado George Edalji, inglês de ascendência pársi (indiano de estirpe aristocrata) que, no início do século XX, se viu injustamente condenado pelo crime de esventrar um cavalo na aldeia de Great Wyrley.
O romance de Julian Barnes inicia-se de forma fulgurante com uma montagem em paralelos de curtos capítulos desenhando rapidamente a meninice de dois jovens que se conhecem apenas pelos nomes de Arthur e George. Ambos são contemporâneos, mas cresceram em mundos diferentes, a muitos quilómetros de distância um do outro. Na página 60, descobre-se enfim que Arthur escrevia histórias sobre Sherlock Holmes e que o seu nome completo é Arthur Conan Doyle. Expoêm-se a partir daí também as desventuras de George, oriundo de uma família constituída por um austero pastor anglicano, indiano, e uma devota mãe escocesa, e ainda uma impulsiva irmã mais nova.
Rodeados estão por desconfiados e pérfidos vizinhos que não aceitavam o facto de terem como companhia “indianos”. George bem afirma que é inglês, mas os enxovalhos prosseguem, até que um dia, sendo já advogado e solicitador em Birmingham, e na sequência de vários acontecimentos sangrentos e reais que são ainda hoje conhecidos como “Os Ultrajes de Great Wyrley”, foi parar à cadeia, julgado, e condenado a sete anos atrás das grades. A acusação era de que esventrava cavalos pelos campos de Great Wyrley, em noites de tempestade e ventania.
O trabalho de Barnes é um romance de fundo histórico, uma cuidada reconstituição ficcional que joga com elementos minuciosamente recuperados e mostra como, a partir de certa altura, Arthur Conan Doyle, então no apogeu da sua glória literária, e entre a morte da sua mulher Touie, e o possível casamento com Jean, a quem amou secretamente durante anos, no mais puro platonismo, se envolveu no caso e lutou por inocentar George, levando a justiça britânica a mudar leis e restaurar, não só a liberdade do condenado, como sobretudo a reputação daquele pársi que nunca deixou de reclamar da sua origem inglesa e nunca acreditou inteiramente que tudo o que lhe estava a acontecer era devido a preconceitos raciais. O livro é uma belíssima e envolvente descrição da sociedade inglesa da época, erguendo duas figuras bem desenhadas com largueza e eficácia, entrelaçadas num erro judiciário que as irá reunir, quando nada o fazia prever.
Excelente de início, um pouco menos conseguido mais para o fim, mas nunca desinteressante, “Arthur & George” mostra-nos a qualidade de escrita de um dos mais reputados autores ingleses contemporâneos, que se coloca ao lado de um Ian McEwan ou de um Martin Amis. Barnes, agora com 61 anos, esboça um retrato de Conan Doyle que não esquece os problemas familiares, o gosto pelo críquete, a mundaneidade e o interesse espírita, sugerindo a dependência da droga e outras características bem conhecidas. Por seu turno George é ainda mais sugestivo, talvez por ser desconhecido do grande público. Introvertido, solitário, bom filho e estudante cumpridor, míope, o jovem advogado manteve até ao fim uma inabalável fé na infalibilidade da lei e da justiça inglesas. Mesmo preso nunca recuou nas suas convicções. O seu caso tornar-se-ia um exemplo, dado que em função do erro cometido as instituições jurídicas inglesas se viram obrigadas a alterar o processamento normal, criando tribunais de apelação para prevenir que outros casos deste tipo pudessem voltassem a aparecer em tribunais do país.
“Arthur & George” foi finalista do Booker Prize 2005 e do International IMPAC Dublin Literary Award 2007.



Principais obras: Metroland (1980, romance), Fiddle City (1981, romance, pseudo. Dan Kavanaugh), Before She Met Me (1982, romance), Flaubert's Parrot (1984, romance), Putting the Boot In (1985, romance, pseudo. Dan Kavanaugh), Staring at the Sun (1986, romance), A History of the World in 10 1/2 Chapters (1989, romance), Duffy (1980, romance, pseudo. Dan Kavanaugh), Going to the Dogs (1987, romance, pseudo. Dan Kavanaugh), Talking it Over (1991, romance), The Porcupine (1992, romance), Letters from London (1995, ensaio), Cross Channel (1996, contos), England, England (1998, romance), Love, Etc. (2000, romance), Something to Declare (2002, ensaios), The Pedant in the Kitchen (2003, gastronomia), The Lemon Table (2004, contos) e Arthur & George (2005, romance).

Nota: O autor do texto aqui publicado é o Lauro António

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Bram Stoker (II)

É verdade, e temos que o reconhecer, Bram Stoker não foi um grande escritor. Pelo menos, se considerarmos a qualidade literária dos seus escritos tendo como referência outros escritores, esses sim, grandes dentro do mesmo género.
Sir Arthur Conan Doyle, quanto a mim, supera-o largamente, deste ponto de vista especificamente literário. Embora um e outro revelem traços criativos e de construção literária bastante diferentes. O que poderá não justificar a comparação.
No entanto, o valor de Bram Stoker persiste no que se refere à intensidade e ao poder da imaginação. Como podemos comprovar de diversas e de inúmeras formas, a sua memória permanece viva, a partir dessa fabulosa personagem que criou, o Conde Drácula.



O que deveremos continuar a perguntar é : onde foi buscar Stoker a inspiração para tal personagem?
Muitas têm sido as respostas. É interessante continuar a averiguar e relembrar algumas explicações. Entre as que conheço, parece-me bastante fiável a ideia de que o Conde Drácula foi criado com base em diversos elementos, recolhidos a partir de diferentes contextos e que Stoker foi utilizando para estruturar, cada vez mais consistentemente, a personagem que daria vida ao seu romance.
Frequentou o Trinity College, onde conheceu Oscar Wilde, assim como Henry Irving. Qualquer deles viria a marcar a vida de Stoker. Passava vários períodos na casa de Wilde a convite dos pais deste. Aí conheceu o meio artístico irlandês.
Entretanto, a carreira de Henry Irving tornava-se fulminante. Inspirado pelo sucesso como actor que o seu amigo conquistava, Stoker propõe-se fazer crítica teatral para vários jornais de Dublin.
O pai não via com bons olhos a sua ligação ao mundo do teatro, o que o levou a iniciar uma carreira de assistente social, tal como a mãe, após ter concluído o seu curso em matemáticas. Passava os dias a percorrer bairros pobres de Dublin e as noites nos teatros e tertúlias da altura.
À medida que a carreira de Henry Irving, como actor shakespeareano da época, se consolidava, e sendo ele também um homem de negócios, decidiu comprar o Lycium Theater de Londres. E convidou Stoker para gestor do teatro, considerando os seus conhecimentos vastos de matemática e de gestão. Mas... parece que Irving nunca se tornou o amigo que Stoker esperava.
É neste ponto que podemos encontrar uma fonte inspiradora para a criação do Conde Drácula.



Segundo alguns críticos, as histórias de Stoker seriam a forma de revelar o ressentimento que tinha para com Irving. E Drácula pode muito bem ter sido o retrato do vampiro Irving. Esta interpretação revela-se plausível, considerando a projecção social do conde transilvano e a do afamado actor, as suas acções e o seu modo de ser, a sua capacidade de adormecer a presa e depois sugar-lhe a vida.
A verdade é que o grande actor centralizava em si todo o movimento de dinheiros. Stoker era, portanto, não um gestor mas um mero secretário de Irving. Este pagava tarde ou não pagava sequer aos seus empregados. Também criava situações que simulava desconhecer, cabendo a Stoker dar a cara perante os credores e assumir a responsabilidade.
A gestão de Irving veio a revelar-se ruinosa em resultado da sua enorme desorganização.
Stoker desenvolveu, entretanto, a sua carreira literária. Publicou vários textos curtos, contos e novelas, romances de características populares e peças teatrais. Deste modo, procurava compensar o dinheiro que Irving não lhe pagava.
Foi no ano de 1890 que começou as investigações para a sua obra-prima: Drácula. Este ano foi também o de apogeu do movimento esteticista de Wilde.
Stoker nunca mudou a sua sorte no que se refere à situação económica delicada, tendo mantido o seu emprego de gestor de teatros até ao fim da sua vida.
O processo criativo do seu imaginário traduzia literariamente, de algum modo, a influência de um tipo de teatro que podemos designar por gótico, o qual pode ser considerado um antecedente directo do cinema moderno. Era um tipo de teatro que procurava, através de um grande número de efeitos especiais, trabalhar ao máximo a imaginação do espectador. O teatro gótico surgiu em finais do século XVIII, mas era ainda um programa constante nos muitos pequenos teatros populares cockneys, no tempo de Stoker.


Henry Irving

Interessante será também perguntar: porque acontece atribuir-se um valor menor a estas narrativas que alimentam o imaginário de muitos com grande prazer?
Se nem sempre serão construções literárias magníficas, a riqueza simbólica e o poder de imaginação que revelam deveriam ser motivos mais do que suficientes para serem respeitadas e apreciadas, mesmo que circunscritas a um contexto específico. Assim como a grande adesão popular que conseguem conquistar. O que pode ser um excelente motivo para aprofundar a sua poderosa carga simbólica. Por certo, o mundo da fantasia revela imenso, e ainda mais do que isso, acerca da natureza do ser humano.
Por outro lado, a ser certo que a inspiração para o Conde Drácula resultou da pessoa de Henry Irving, alguém que Bram Stoker tão bem conhecia e com quem convivia tão de perto; a ser isso a verdade, nesse caso, só resta concluir que a vida real é sempre a principal fonte de inspiração de todo o artista, ou seja, o que mais o inspira é sempre essa magnífica musa: a vida...

(Texto de referência para recolha de informação: introdução de Hugo Xavier aos Contos de Terror de Bram Stoker)
(Imagens: resultados de pesquisa no Google)